Vizinhos dos fundos lucram com a vista para o mar
Tem gente que não mora na Avenida Atlântica, nem na Vieira Souto e, mesmo assim, tem vista para o mar. É o caso dos vizinhos de fundos das últimas casas da orla, que não tiveram sua visão da praia obstruída por edifícios. Há apartamentos de sala e quarto que chegam a valer R$ 300 mil só pelo direito à vista.
Proprietária de um desses imóveis no edifício de número 1.229 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, a aposentada Maria Malheiro Ferreira comprou seu sala e quarto há 12 anos, motivada pela paisagem. Seu prédio dá fundos para a casa do consulado da Áustria no Brasil, que, no entanto, está com os dias contados.
- Aqui no prédio, a procura é maior por esses apartamentos com vista para a praia, no caso os de fundos. Gosto muito dessa visão e isso certamente me influenciou na hora da compra - afirma Maria, que lamenta a possível perda do privilégio de ver o sol se pondo diariamente no horizonte do mar. - Infelizmente, a informação que nós temos é que estão vendendo o consulado da Áustria. Vou perder essa visão maravilhosa.
Quarto e sala por R$ 300 mil O apartamento da aposentada possui apenas um quarto e, segundo ela, está valendo mais de R$ 200 mil. Isso porque fica no terceiro andar, o que garante apenas a vista parcial do mar. As moradias de fundos do sexto até o último pavimento, o 12º - todas de quarto e sala e algumas sem dependências de empregada - não custam menos de R$ 280 mil.
Segundo o porteiro do edifício, José Ronaldo Medeiros, a maioria desses apartamentos é usada para aluguel por temporada, principalmente no Réveillon, com preços nada generosos.
- Aqui, temos cinco apartamentos de fundos que são usados apenas para temporada. Os preços costumam ser, em média, de R$ 3.500 a R$ 4.500 por semana - revela ele, que trabalha no edifício há 17 anos.
Não muito longe dali, na vizinhança da famosa casa de pedra da esquina da Avenida Atlântica com Rua Santa Clara, os moradores dos prédios dos fundos e da lateral do imóvel também se beneficiam da pouca altura do vizinho. Localizado na Santa Clara, o apart-hotel Atlântico Flat Service é um destes felizardos.
O edifício - que abriga moradores fixos e hóspedes, que pagam diárias entre R$ 249 e R$ 300 - tem nos fundos a casa de pedra, o que permite uma vista livre para a praia.
- Moro aqui há cinco anos e me deslumbro diariamente com essa visão - diz a moradora Rosângela Passos da Silva.
Sem coberturas Apesar da vista, Rosângela, casada com um italiano, reclama de outra peculiaridade imobiliária do bairro: a falta de apartamentos de cobertura naquela parte do bairro.
- Não entendo o decreto que proíbe coberturas nesses prédios. Se não houvesse isso, a visão certamente ficaria mais bonita ainda, porque aqueles prédios sem ninguém morando no último andar são muito feios.
O síndico do edifício, Eitan Havis, comemora o fato de não existir a possibilidade de o imóvel perder essa visão.
- Felizmente, a casa de pedra foi tombada há e isso é muito bom para o nosso prédio - destaca.
Jornal do Brasil, 04/out